A história de Orelha, um cachorro comunitário conhecido e cuidado por moradores de uma cidade de Santa Catarina, ultrapassou os limites de um caso isolado de violência. Ela se transformou em um símbolo de como a crueldade contra animais ainda é tratada com descaso — e, pior, como a forma de contar essa história pode gerar ainda mais indignação. O episódio exibido pelo Fantástico no último domingo não trouxe alívio nem respostas. Pelo contrário: reacendeu uma revolta coletiva que rapidamente tomou conta das redes sociais.
Para muitos telespectadores, Orelha não foi apenas vítima de um ato brutal nas ruas. Ele também acabou sendo reduzido a um relato superficial em um espaço que, historicamente, se propôs a investigar, contextualizar e dar profundidade a casos que chocam o país. A frustração veio justamente da expectativa: quando um dos programas jornalísticos mais tradicionais da televisão brasileira aborda um tema tão sensível, espera-se mais do que uma exposição rápida dos fatos.
A expectativa por uma apuração mais profunda
O Fantástico construiu sua reputação ao longo de décadas com reportagens investigativas, apurações minuciosas e compromisso com temas de interesse público. Por isso, o público esperava que o caso de Orelha recebesse um tratamento à altura da sua gravidade. No entanto, o que muitos viram foi uma abordagem considerada rasa, sem aprofundamento nas responsabilidades, sem questionamentos mais incisivos e sem o devido espaço para especialistas, ativistas e representantes da causa animal.
Nas redes sociais, a crítica foi imediata. Internautas apontaram que a reportagem deixou lacunas importantes, não contextualizou a recorrência de casos semelhantes e tampouco reforçou a importância da responsabilização legal. Para quem acompanha a luta contra crimes envolvendo animais, a sensação foi de que o episódio foi tratado como mais uma pauta passageira, quando poderia ter sido um marco de conscientização.
A ausência de uma análise mais crítica e investigativa acabou gerando a percepção de que o sofrimento de Orelha foi normalizado. E isso, para muitos, foi tão revoltante quanto o próprio ato de violência que deu origem ao caso.
A reação de ONGs, ativistas e figuras públicas
Não foram apenas telespectadores anônimos que se manifestaram. ONGs de proteção animal, ativistas, advogados e artistas também usaram suas vozes para cobrar mais responsabilidade editorial ao tratar de crimes dessa natureza. Para esses grupos, a forma como a mídia aborda esses episódios influencia diretamente a maneira como a sociedade os enxerga.
A crítica central foi clara: quando casos de violência contra animais não recebem o devido destaque, a mensagem transmitida é a de que essas vidas valem menos. Muitos lembraram que a legislação brasileira prevê punições severas para crimes desse tipo, mas que a falta de pressão pública e cobertura consistente contribui para a sensação de impunidade.
Além disso, ativistas ressaltaram que Orelha era um cachorro comunitário, cuidado por várias pessoas, o que reforça a dimensão coletiva da perda. Ele representava um vínculo afetivo, um símbolo de convivência e empatia, e não apenas “mais um animal” nas estatísticas.
O que fica após a repercussão
A repercussão do caso mostra que a sociedade está mais atenta e menos disposta a aceitar abordagens superficiais. Orelha se tornou um símbolo não apenas da violência contra animais, mas também da necessidade de um jornalismo mais comprometido, humano e responsável ao tratar temas sensíveis.
O público deixou claro que não quer apenas saber o que aconteceu, mas entender por que aconteceu, quem são os responsáveis e o que pode ser feito para evitar que histórias como essa se repitam. A cobrança não é por sensacionalismo, mas por profundidade, contexto e compromisso social.
No fim, Orelha permanece como um lembrete doloroso de que a crueldade não termina no ato em si. Ela se estende quando a sociedade falha em reagir com a seriedade necessária — e quando narrativas deixam de cumprir seu papel transformador. O debate está aberto, e a pressão por mudanças segue mais viva do que nunca.
